30.10.07

Tenho saudades, sim

Tenho saudades da cor dos dias. A segunda branca, a terça verde, a quarta vermelha, a quinta azul e a sexta «todo o mundo veste branco». E do sábado e domingo de todas as cores; Dos corpos bonitos, malhados. Sem cerimónia; Da disponibilidade para a farra; De ir para a praia só de toalha. E beber caipirinha, comer queijinho, cajú torradinho. E Arrumadinho, se quiser almoçar; Da minha praia, meu mar, meu rio. Oceano Atlântico. Rio Sapato. Minha Óxum, minha Yemanjá; Do sincretismo, do fantástico, das histórias, e das pessoas que vêem «gente por aí...»; Do meu Palio Adventure. E de minhas casas. E das suas varandas sala-de-jantar, onde os micos roubam fruta e dormem à sombra; Da Estrada do Coco. De um lado, o mar, de outro, a terra vermelha e a mata Atlântica; Do canto dos pássaros à minha janela; De Dona Gildete e seu António, meus avós bahianos, a quem peço a bênção. E da Lúcia, em Lúcia; Daquela humidade que só convida a namorar; Da palavra transar, e de todas as sacanagens que se podem dizer ao ouvido nesse falar; De dormir nua; De deitar na rede; Das Três Marias deitadas e do tamanho da lua; Das tempestades tropicais, onde parece que o céu vai desabar; Do sabor das mangas. Da feijoada, do mocotó, do feijão com arroz, da carne mal passada. Da pimenta e da farinha; Ah, e o Petit Gâteau da Parmalat? E a Paralela, à noite, voltando de Salvador? E que saudades dos barzinhos com música ao vivo. E de dançar, balançar; Das livrarias, dos livros cuidados, das capas bonitas. Da publicidade e dos «eslogans». Da música e dos poetas que entendo; De meu Exu, na porta, bebendo whisky pois não gosta de cachaça; Do réveillon todo branco na água do mar; Do sabor da maconha. Fraquinha, fresca, pura, com delivery por motoqueiro sarado; De ver o mundo de pernas para o ar; Do beija-flor que toda a manhã vem beber água com açúcar; Das oferendas ao mar e ao rio. Das lavagens na praia. Dos banhos no terreiro. E de minhas contas, amarelas e vermelhas; Do preço da carne; E que saudades do pão, de manhã, deixado no portão; Da depilação brasileira; De andar descalça; De não ter frio; Das sex-shops e dos motéis. Três horas, pernoite, diária, café da manhã; Do corte das calcinhas “Corpo e Arte”, de meu DarlingCalifon e dos cheirinhos da Natura; E das cantadas. Em qualquer lugar, em qualquer ocasião. Como sinto falta delas; E do cuidado com as unhas e o cabelo; Da pele bronzeada, macia; De me sentir mais mulher, mais bonita, desejada; Da sensação de uma vida em férias, e do tempo que passa devagar; Do meu cachorro Totó que ficou por lá. E de outras coisas... inconfessáveis. Tudo o resto é igual. Viver aqui, lá, na China ou no Uruguai.

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