22.7.08

Lenda da Praia do Guincho

Um pouco para além de Cascais situa-se um forte abandonado, construído sobre as ruínas de um antigo castelo.

Há muitos séculos atrás, no tempo de el-rei D. Afonso II, vivia nesse castelo um jovem nobre, corajoso guerreiro, como o fora seu pai, e piedoso cristão, tal como sua mãe Tanto o pai como a mãe tinham morrido há pouco tempo, o que contribuía para um certo desamparo e solidão de D. Pedro de Portugal.

Nesses tempos antigos era-se considerado homem ou mulher numa idade que hoje nos parece inconcebível. Aqueles que consideramos agora como adolescentes, eram, naqueles tempos, considerados homens prontos a enfrentar toda a casta de dificuldades da vida civil ou guerreira.

D. Pedro era, portanto, muito jovem, mas já cavaleiro das hostes reais e muito em idade de tratar da sua vida privada, apesar de órfão. Assim, vamos encontrá-lo a reorganizar a vida do seu castelo, já que se estava em tréguas com os mouros e não havia ocupação guerreira à vista.

Necessitado de serviçais no castelo, mandou arrebanhar pelas cercanias quantas donzelas e donzéis os seus homens achassem. Entre as raparigas que certa noite chegaram ao paço de D. Pedro encontrava-se Dulce, filha de pobres pescadores dos domínios do senhor. Era, tal como a maior parte dos outros, apenas uma criança de cerca de oito anos. Mas, se a maioria seguia com alegria e satisfação os homens de D. Pedro, pelo que isso significava de fartura de pão para a boca e roupa para o corpo, Dulce, pelo contrário, acompanhava-os tremendo de medo e saudade de seus pais, chorando silenciosamente.

Foi D. Pedro, que estava no terreiro do castelo, quem recebeu aquela revoada de gente. Encaminhou-os para as cozinhas ao mesmo tempo que os observava um a um. Quando chegou a Dulce e a viu em tais prantos, o seu coração apiedou-se e perguntou:
- Porque choras? Não vês que todos sorriem contentes?!
- Quero voltar para casa...
- Mas porquê, se aqui vais ficar melhor que lá? - Quero os meus pais... Vou ter saudades...
Enterneceu-se D. Pedro, que, passando a mão sobre os cabelos loiros de Dulce, à laia de afago, lhe disse:
- Mais uma razão para ficares aqui. Eu também tenho saudades dos meus, que já morreram. E como não tenho irmãs ou irmãos que me façam companhia, gostaria que aqui ficasses para conversarmos ambos sobre os nossos pais. O que achas?
- Bem... assim, pode ser!...

Dulce ficou Muitas horas do dia passava-as com D. Pedro conversando de mil e uma coisas sem importância para os outros, fundamentais porém para ambos. Passaram muitos meses e a intimidade entre os dois aumentava de dia para dia, ao mesmo tempo que cresciam as invejas e inimizades disfarçados das outras servas do castelo. O trabalho de Dulce era acompanhar D. Pedro para todo o lado, como um cãozito fiel. Enchia-lhe a taça de vinho, escolhia-lhe os melhores frutos e até, por vezes, lhe cortava os nacos de carne que levava à boca. E, sem se darem conta, habituaram-se tanto um ao outro que já não podiam estar dia separados.

Em frente ao castelo havia sempre uma tenda preparada para receber e albergar os mensageiros de novas lutas. Certo dia chegou à tenda um cavaleiro que vinha com uma mensagem de D. Soeiro, bispo de Lisboa, para D. Pedro de Portugal.
Deslocou-se o senhor à tenda e aí lhe comunicou o recém-chegado que as hostes estavam quase prontas para correrem sobre Alcácer do Sal, a mais poderosa fortificação moura, fronteira ao Reino.

Apanhado subitamente por esta notícia, que significava ter de se ausentar do paço e de Dulce, D. Pedro pareceu vacilar. O mensageiro, pensando tratar-se de um movimento de cobardia, semi-sorriu de desprezo.
D. Pedro, porém, estava atento e, percebendo o que se passava no interior do mensageiro, ergueu os ombros e bradou:
- Senhor, tende cuidado com os esgares! Se ainda o não sabeis, em breve podereis ver que entre os legados de meu pai estava também o ódio à cobardia e o desprezo pela vida que não é vivida ao serviço d’ el-Rei e de Deus!!

Quando Dulce soube da partida breve do seu senhor, suplicou-lhe que a levasse à tenda onde costumava recolher-se antes de partir para os fossados. D. Pedro, que nada sabia recusar-lhe, montou-a na garupa do ginete e fez-lhe a vontade. Assim que entraram na tenda Dulce ajoelhou-se aos pés do seu amigo e. na inocência dos seus poucos anos, confessou-lhe o amor que sentia. D. Pedro, espantado, descobriu então que também ele a amava há muito, sem se ter dado conta de que o sentimento que os unia era esse. E abismados se quedaram olhando-se como se aquela evidência os tivesse feito nascer nessa hora.

Dulce e D. Pedro sentiam-se pela primeira vez embaraçados e subitamente sem ter que dizer, eles que sempre tagarelavam alegre e descuidadamente. Para quebrar o enleio, a rapariga tirou do pescoço um pequeno crucifixo de ouro, que fora presente de sua mãe quando partira de casa, e pendeu-o no peito de D. Pedro, pedindo-lhe que o usasse sempre que estivesse longe, na guerra. O cavaleiro prometeu nunca mais o tirar e acrescentou que enquanto estivesse ausente não a deixaria só e à mercê das invejas crescentes no paço, pelo que tornaria à casa de seus pais.

Apesar da tristeza da partida, Dulce ficou intimamente satisfeita por poder voltar à cabana de seus pais, de tornar a tocar os apetrechos de pesca, de encascar de novo as redes do oficio Pouco tempo antes de D. Pedro partir, Dulce contava-lhe tudo isto que tencionava fazer quando de repente o cavaleiro lhe perguntou se não poderia também ele deixar uma rede especial para ela encascar. E, enquanto isto ia dizendo, tirou do bolso do gibão uma e pequena coifa de pérolas, ante a qual Dulce, surpreendida, disse:
- Oh senhor!... Será que eu saberei encascar tal rede?!
- Sei que te vai ser difícil, Dulce! Mas, por favor, encasca-a com as lágrimas que te fizer chorar a vitória da hoste em Alcácer!

No dia seguinte D. Pedro de Portugal partiu com os seus homens. Dulce ficou no terreiro até os ver desaparecer lá longe, no caminho de Lisboa. Depois, partiu para a cabana de seu pai, sem temor e com o coração cheio de certeza na vitória.
O tempo foi passando. Os campos e o mar demoravam-se numa letargia estranha porque a maioria dos homens partira para Alcácer com D. Pedro. Faltava ao campo a alegria colorida das bragas dos homens. Ao mar faltavam os braços encordoados esvoaçando ao som dos remos.

Todos os dias Dulce descia à praia para esperar, esquecida de si e de tudo, dias inteiros. Dir-se-ia embebida em pensamentos, mas, na realidade, até de pensar se esquecia. Esperava apenas e quem espera não pensa, espera.

Lá longe, em Alcácer, iniciara-se já o assalto. A hoste comandada por D. Soeiro entrara finalmente na cidade e combatia-se pelas estreitas vielas mouriscas. Uma estocada súbita do adversário feriu D. Pedro de Portugal, que pareceu sucumbir. Mas o guerreiro era esforçado e, cobrando alento, fez voltear a espada sobre a cabeça dizimando quantos mouros encontrou à sua volta. Por fim, vencendo a última resistência, clamou:
- Já encascaste, Dulce?

- Nesse momento, sobre o rochedo da praia, ouviu-se um guincho medonho, agudo estridente, que pôs a povoação inteira em alvoroço. Toda a gente correu à praia a tempo de ver Dulce cambalear, quase cair.
Sentaram-na sobre a areia e esperaram que a cor lhe voltasse ao rosto, que a voz se soltasse do coração apertado. Pouco a pouco, lágrimas começaram a correr-lhe lentamente pela face, sobre a coifa de pérolas apertada entre os dedos. E quando, por fim, recuperou a voz, murmurou:
- Vitória! Vitória em Alcácer!!

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1 Comments:

At 11:35 da tarde, Anonymous Anónimo said...

foda-se que este post era grande comó caraças!!!! a palavra síntese diz-lhe alguma coisa?

 

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